Edweine Loureiro

    Author: Ailda Deiró Genre: »
    Rating

     

    ]]]
                                                        
    AEROPORTO HEATHROW

        ― Qual o propósito de sua vinda à Inglaterra?
        ― Uma conferência?
        ― Conferência de quê?
        ― Escritores.
       Nisto a funcionária da Imigração olhou-me desconfiada. Com toda a razão. Escritores reunidos? Perigosíssimo. Risco de bomba, até. E para certificar-se de que eu não representava nenhuma ameaça ao bem-estar do povo britânico, exigiu:
        ― Mostre-me alguma prova de que o senhor é realmente escritor.
       Temi. Uma vez que pertencemos a um grupo de seres inclassificáveis, não me ocorreu, de imediato, nenhuma resposta plausível a essa pergunta. Ainda assim, resolvi arriscar:
        ― Tenho... um livro... aqui, comigo... mas...
        ― Mas o quê? – falou-me num tom intimidador.
        ― Está em Português.
       E logo percebi que fora um erro mencionar o idioma. Isso aumentou-lhe a irritação. Português? Não havia uma língua, digamos, mais economicamente desenvolvida para escrever? – ela deve ter pensado no momento. Não obstante, decidiu ser complacente:
        ― Tem sua foto no livro?
        ― Tem.
        ― É sobre o quê?
        ― Contos curtos.
        ― Não é romance?
        ― Infelizmente, não...
      Mostrei-lhe, então, minha singela obra. Ela folheou com um ar de desdém e, em seguida, devolvendo-ma, continuou o interrogatório:
       ― Pretende ficar aqui quantos dias?
       Dessa vez, senti-me um pouco mais aliviado. Se ela já estava me perguntando sobre o período de estada no país era porque, pelo menos, eu poderia entrar. E, sorrindo, respondi: 
       ― Quatro. No sábado, retorno.
       Outro erro. Não se deve sorrir para um funcionário de Imigração. 
       ― Por que o sorriso, senhor?
       ― Nada, não, senhora... – disse-lhe balbuciante. – Só estou feliz, pois sempre sonhei visitar a Inglaterra...
       Ela permaneceu olhando-me, séria. E, por fim, torcendo o nariz, liberou-me; não sem antes atirar-me esta:
       ― Espero que da próxima vez o senhor traga um romance... em inglês! Bem-vindo, senhor. – e, devolvendo-me o passaporte carimbado, fez sinal para que eu caminhasse rápido.
      Obedeci, claro, querendo livrar-me logo daquilo e retirar minha bagagem. E, enquanto caminhava, juro, ainda olhei para trás, temeroso de estar sendo seguido.
       Sei lá... E se existisse alguma lei inglesa proibindo a entrada de microcontistas e a polícia já havia sido acionada?
        Da próxima vez – disse comigo, enquanto acelerava o passo –, levaria um romance publicado. Em inglês.

    Leave a Reply